Boas-Vindas
6 de dezembro de 2009De batom e sobre o salto
8 de março de 2010 
Quando eu era pequena, as mulheres ao meu redor sempre pareciam estar envoltas numa aura de mistério e encantamento, afinal, eu ainda não era uma delas, mas, ao mesmo tempo, queria muito entrar para o clã. O desejo ficava mais latente ao ver minha mãe fazendo as unhas, minha tia se maquiando e minha jovem prima pintando os lábios ou escovando os cabelos. Eu achava aquilo tudo o máximo e ansiava me tornar mulher logo de uma vez para poder fazer coisas desse tipo.
No entanto, quando comecei a compreender as histórias de família, descobri que mulheres não eram só esmaltes e maquiagem. Minha mãe contava que a avó dela se tornou uma com 12 anos, ao se casar. Ela dizia que, quando o marido chegava do trabalho, a janta ainda não estava pronta porque a menina passara o dia todo na varanda brincando de bonecas. Então, concluí que, se eu quisesse ser mulher, precisava arranjar um marido. Para que ele me serviria eu não fazia ideia, mas certamente era a peça-chave para a realização do meu sonho, nem que isso me custasse algumas horas ao fogão.
Ah, é! O fogão. As mulheres de minha família sempre estavam muito ligadas a ele. Ao lado do tanque e do ferro elétrico, ele era o companheiro inseparável delas, e é claro que eu precisava me tornar íntima dele. Incontáveis foram as vezes em que minha mãe e minha tia me ensinaram a cozinhar, lavar e passar. E eu, de olhos vidrados, aprendia cada passo. Mais tarde, eu servia a refeição preparada com o auxílio delas e aguardava ansiosa pelo elogio dos homens da casa.
Sim, elogios dos homens… Isso não podia faltar! As duas se derretiam quando meu pai e meu tio lhes dirigiam qualquer palavra doce. Por isso, receber elogios do sexo oposto se constituiu num dos meus maiores objetivos nesse período. Eu achava que já estava pronta para me tornar mulher no dia em que minha mãe permitiu que eu passasse batom pela primeira vez e quando minha tia me deu o primeiro sutiã – aquele acessório maravilhoso que eu só não usava desde sempre porque não tinha com que preenchê-lo. Agora, só faltava arrumar um marido e ter um filho.
Ledo engano… Mal sabia eu que, para entrar para o clã, ainda faltava um ritual terrível. E foi ele que me fez desistir para sempre do meu sonho dourado: a menstruação. Depois que ela chegou, ser mulher me parecia a pior das maldições. Se eu tivesse de enfrentar aquelas cólicas tenebrosas e sentir toda aquela indisposição mensalmente, então, muito obrigada, Natureza, mas eu deveria ter nascido homem.
Tive a impressão de que, após esse acontecimento, comecei a enxergar a mulher de outra forma, o que fez dela um ser intensamente sofredor, submisso e injustiçado. Passei a ter verdadeira ojeriza ao trio fogão-tanque-ferro e me parecia absolutamente contraditório fazer as unhas semanalmente, quando elas seriam destruídas durante os afazeres domésticos. O homem se transformou numa figura maligna, pois era por causa dele que a mulher deveria cozinhar, lavar e passar rotineiramente. E o pior: para ganhar um elogio no final do dia! Isso sem falar que era devido a eles que as mulheres tinham bebês e inchavam durante noves meses. Depois, eram abertas por um bisturi e nem o ventre nem os seios seriam novamente os mesmos. Eu não queria mais ser mulher. Ser mulher era o pior castigo que poderia ser aplicado a alguém.
Me enganei novamente. Depois que meus hormônios adolescentes se acalmaram, notei que ser mulher é, sim, todas essas coisas cansativas e tenebrosas. Mas, acima de tudo, é conseguir encará-las cotidianamente e enfrentar os dias de batom e em cima de um salto. Mulher que é mulher não abre mão de pintar as unhas, de ir ao salão de beleza e de comprar roupas mesmo sem necessidade, só para se sentir bela e feliz. Mulher que é mulher trabalha fora o dia inteiro e ainda tem tempo para passar no mercado, chegar em casa para beijar os filhos e dar atenção ao marido e, antes de se deitar, massagear o rosto com um creme antirrugas. Mulher que é mulher sabe conviver com as dores e disfarçar a cólica num sorriso. Mulher que é mulher não tem vergonha de ir à praia de biquíni e exibir o corte da cesariana. Mulher que é mulher espera um elogio masculino. Todas certamente se derretem quando recebem um, nem que essa seja uma recompensa a que serão capazes de fingir indiferença, afinal, mulher que é mulher é complicada por excelência.
Uma história de companheirismo
4 de março de 2010
Estrelado por Richard Gere, o longa de aproximadamente 93 minutos conta a história de um cão acostumado a acompanhar o dono até à estação de trem onde pegava condução para o trabalho. Quando o homem retornava do expediente, o bichano estava no mesmo local esperando por ele. O filme é um remake do clássico japonês ‘Hachiko Monogatari’, de 1987, por sua vez inspirado numa história real ocorrida no Japão entre as décadas de 1920 e 1930.
O caso aconteceu em 1923, quando nasceu o cãozinho da raça akita chamado Hachiko, enviado à casa do professor universitário Hidesaburo, que vivia em Tóquio. A amizade e o amor entre ambos se fortaleceu a ponto do bichano acompanhar o dono todos os dias até a estação de trem onde o homem pegava condução para ir ao trabalho. O cão voltava para casa e retornava sozinho à estação exatamente na hora em que o trem de Hidesaburo voltava, fizesse chuva, sol ou neve. Em 1925, o homem morreu enquanto trabalhava e nunca mais pegou o trem de volta.
O incrível é que, desde essa data, o cachorro sempre retornava ao local para esperar pelo dono, o que fez durante dez anos. Sua figura constante ficou tão famosa no local, que vendedores e antigos amigos de Hidesaburo passaram a levar comida e água para o animal. Era o que eles podiam fazer pelo cão que sempre esperava pelo dono que jamais regressaria. Em 1934, Hachiko faleceu. No entanto, uma estátua de bronze em sua homenagem foi erguida na estação de trem e está lá até hoje para lembrar aos homens a fidelidade e o amor incondicional do akita pelo dono. Com o passsar do tempo, a obra se tornou o mais famoso ponto de encontro do bairro Shibuya.

Quem passa pela estação de trem do bairro Shibuya, em Tóquio, pode ver Hachiko esperando
O poder do recomeço
4 de março de 2010
Por mais que se queixe durante o ano letivo, o aluno sempre comemora a volta às aulas. O mesmo ocorre com o professor, que, fatigado e rouco após tantos meses de leitura e trabalho criativo, não vê a hora de concluir as atividades pedagógicas e fechar as notas do caderno de chamada para, finalmente, entrar em férias. Penso que aguardamos ansiosamente o final do ano letivo só porque bem lá no fundo desejamos ardentemente que ele se reinicie e traga todos os sentimentos de renovação, força de vontade e crença. E não é justamente a fé aquilo que os começos sempre trazem consigo?
Ao voltar ao trabalho na última segunda-feira, percebi o quanto o retorno à escola é tão mais satisfatório que a saída dela. No primeiro dia de aula, os alunos riam sem motivo aparente, conversavam alto, brincavam uns com os outros, dançavam a música inaudível, interagiam com os professores… Alguns desfilavam suas melhores roupas, outros ajeitaram os cabelos do jeito mais bonito, muitos tinham materiais novos e cadernos de folhas muito lisas e branquinhas… E eu fiquei ali, olhando de longe e pensando: o que será que essa turminha vai pintar nessas folhas? O que será que esse grupo vai escrever durante o ano nessas linhas vazias e impregnadas de possibilidades?
Foi aí que eu notei que sempre é possível recomeçar. Quando entrei na sala de aula e encarei aqueles vinte e poucos pares de olhinhos me fitando, descobri que o passado não me importa. Fulano foi péssimo aluno? Beltrano não leu nenhuma obra literária? O outro só queria saber de brincar? Aquele lá só se interessou no final do ano? Não sei. E nem quero saber. Para mim, o que conta é o agora e todas as chances que esse começar de novo oferece a cada um de nós. Confio em todos da mesma maneira. Acredito no potencial individual dos meus alunos. Eles podem ser melhores a cada reinício e isso é o que me esforço para dizer a eles diariamente.
Antes de os estigmatizarmos, deveríamos nos dar conta de que nós mesmos os impedimos de recomeçar sempre que apontamos o dedo e afirmamos que “aquele menino nunca quer saber de nada” ou que “aquela menina é muito fraca”. Enquanto professores e, acima disso, seres humanos, nosso papel é ensinar que a desistência não é uma opção. Não podemos jamais aceitar que um aluno desista, que se torne apático, que diga que não sabe, que pense que não pode. Somos referência, somos espelho, somos figuras adoradas e queridas e sequer imaginamos a força que têm as palavras que saem de nossas bocas. Os alunos sempre sabem quando os professores mudam o corte de cabelo, quando trocam a cor do esmalte, quando compram um calçado novo, quando utilizam uma joia diferente. Já parou para pensar por quê?
Minha volta às aulas foi assim. Muitas coisas me fizeram refletir. Contudo, o que mais me tocou foi descobrir que, entre os demais, havia alguns ex-alunos comemorando o primeiro dia de aula. Não deles mesmos, é claro. Penso que voltaram à escola naquele dia para sentirem que, apesar de a vida ser completamente diferente agora, será eternamente possível recomeçar. E muito mais intenso será esse recomeço se ele ocorrer em meio a pessoas que sempre acreditaram que o amanhã será melhor.
Que neste dia primeiro, quando milhares universitários e alunos da rede pública reiniciam o ano letivo, as esperanças sejam renovadas. Que cada professor conduza o educando pelos melhores caminhos, guiando-o pela mão e fazendo-o acreditar que os recomeços existem para que tenhamos a chance diária de superar limites e enfrentar obstáculos.
Carnaval
24 de fevereiro de 2010– Não entendo como você ainda consegue se interessar por isso, Maria Helena.
– Ah, Jorge, não começa. Já falei: se não está gostando, sai da sala. Vai dormir, dar uma volta com o cachorro, ligar para a sua mãe, sei lá. Mas, por favor, não começa.
– Você, hein! Sempre tão estúpida. Prefere dar atenção a essa porcaria e não a mim, que sou seu marido. Nos outros 361 dias do ano, peça ao Carnaval que bote dinheiro dentro de casa e que pague suas contas.
– Que “hiprocrisia”, Jorge! Que “ingnorância”! Você esquece que me conheceu no samba, meu bem? Eu era a neguinha mais gostosa do sambódromo e você não se queixava do meu rebolado. Lembra que você mal podia esperar chegar o Carnaval só pra me ver cair na folia e dançar pra você? Já se esqueceu, Jorge?
– Ah, Maria Helena, esses eram outros tempos.
– Eram tempos em que você ainda tinha cabelo na cabeça e não peidava debaixo do cobertor.
– Eram tempos em que você não tropeçava nas suas tetas e em que a sua bunda não arrastava no chão do sambódromo.
– Que “hiprocrisia”, Jorge! Que “ingnorância”! Isso não é jeito de tratar uma mulher. Não é jeito de tratar a mãe dos seus cinco filhos. Quem é que lava, passa e cozinha nessa casa, hein? Quem é que tá lá na caminha, toda noite, esperando você chegar? Anda, fala. E agora fica aí, se queixando porque meu único luxo, meu Deus, nessa vida ingrata, é assistir aos desfiles de Carnaval.
– Mas isso não é mais do que a sua obrigação! Quem é que trabalha dia e noite, debaixo e de sol e chuva, martelando, acimentando, rebocando, criando um monte de calos nas mãos, tudo pra alimentar essa sua… essa sua…
– Fala, Jorge! Anda, fala de uma vez!
– Essa sua pança enorme e assustadora, Maria Helena. Pronto, falei!
– Jorge! O que foi que você disse?
– É por isso que eu comecei a odiar o Carnaval, Maria Helena. Por causa dessa sua… buzanfa… enorme e quadrada… Quando o samba começa a tocar, eu entro em pânico. A visão mental que me vêm quando alguém menciona a palavra “Carnaval” é você, no meio da sala, de top e shortinho, rebolando e saltitando de um jeito que faz a vizinhança inteira tremer!
– Que “hiprocrisia”, Jorge! Que “ingnorância”! Ah… Eu não esperava nunca ouvir isso da sua boca. Bem que minha mãe dizia: “cuidado, Maria Helena, esses homens mimados pelas mães são os piores”…
– Mimado pela mãe? Eu?
– Sim, você mesmo. O problema, Jorge, e você, como sempre, nunca vai admitir isso, é que sua mãe nunca quis que você se casasse comigo, a neguinha do sambódromo. Mas você desafiou aquela bruxa velha e hoje se arrepende até o último fio de cabelo. Acho que é por isso que o seu cabelo cai tanto. É arrependimento!
– Eu não me arrependo de nada. Não é nada disso! E não ofenda minha mãe desse jeito!
– Não se arrepende? Nem quando vê a minha buzanfa enorme e quadrada chacoalhar a vizinhança? Nunca, em 30 anos de casamento, você me disse um coisa tão horrorosa como essa.
– É que você me provoca, Maria Helena. Você me deixa maluco! E se alguém na janela, escancarada, por sinal, enxerga você aí, nua, no meio da sala?
– Que “hiprocrisia”, Jorge! Que “ingnorância”! Não tô nua! E outra: o que é que tem? Você vai ficar com vergonha de ter uma mulher tão horrorosa?
– Ciúme…
– O quê?! Fala mais alto que eu não tô escutando direito isso que você acabou de confessar.
– CIÚME, sua surda. E, além disso, cega. Será que você não vê que eu morro de ciúmes de ver você aí, se insinuando pros vizinhos? Você fala errado, está acima do peso, ficou vulgar, mas eu ainda tenho ciúmes de você, porque você é MINHA mulher! Quer que eu seja mais claro?
– Que “hiprocrisia”, Jorge! Que “ingnorância”! Se eu não larguei você quando meu corpo era o de uma sereia, não é agora, que virei uma lula gigante, que eu vou te deixar. Mas não precisa me xingar pra dizer que me ama, meu carequinha.
– É hiPOcrisia, neguinha…E IGNOrância!
– Tudo bem, tudo bem… O importante é que no final você sempre admite.
Depois do crepúsculo, nascem mais imortais
22 de fevereiro de 2010
Na semana passada, concluí mais uma das minhas leituras de férias. Depois de “Noturno” (Rocco, 464 páginas), de Guilhermo del Toro e Chuck Hogan, resolvi dar uma espiada em “Para Sempre” (Intrínseca, 295 páginas), de Alyson Noël. Tanto um quanto outro foram recentemente lançados no mercado editorial brasileiro e, portanto, ainda não são populares entre nossos leitores. Além do mais (e ultimamente isso parece estar na moda na literatura), ambos são os primeiros volumes de sagas literárias. “Noturno” faz parte da “Trilogia da escuridão” e “Para sempre” está incluído na série “Os imortais”.
Há alguns meses, eu havia lido um pequeno comentário a respeito de “Para sempre” em algum lugar no jornal Zero Hora, e a sinopse me despertou certa curiosidade, já que estou sempre à cata do que indicar aos meus alunos. Logo, antes de cair na graça dos adolescentes (e pode ter certeza de que isso vai acontecer), pensei, vou checar. Encontrei muitos exemplares à venda numa livraria de São Paulo, durante o período de férias, e acabei levando um deles pra casa. Capa atraente, letras grandes, páginas grossas e de cor agradável aos olhos… Irresistível!
Depois de devorar alguns capítulos, reparei que aquela história me parecia muito familiar: uma menina de autoestima baixa se muda para outra cidade, passa a estudar em outro colégio (onde também tem de ler “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë) e conhece um cara esquisitão e incrivelmente lindo, que guarda um segredo secretíssimo e passa a ser o amor da vida dela. Bella e Edward te dizem alguma coisa? Mas não se engane. Apesar da semelhança inquestionável com “Crepúsculo”, a sinopse se refere ao mais novo par romântico da literatura adolescente: Ever e Damen. Guarde esses nomes, pois eles serão a próxima droga alucinógena que vai rolar entre a gurizada. Digo “droga” por duas razões. A primeira é que, pela semelhança com a série de Meyer, a saga “Os imortais” se tornará um vício para acalentar os corações saudosos das aventuras de Bella e Edward. Segundo porque, depois de ler a obra, concluí que ela é, de fato, uma droga (no sentido figurado da coisa).
Narrado pela protagonista, o enredo é completamente absurdo. E não pelo fato de explorar o campo da metafísica e abordar assuntos relacionados à imortalidade e à espiritualidade. Sob o ponto de vista da ficção, não há problema nisso. É absurdo porque o modo como Ever se vê no mundo (não se encaixa, não é bem vista na escola, quer se esconder, se acha um ET depois que sofreu um acidente e passou a adquirir certos poderes, etc) não condiz absolutamente com a maneira com que descreve as situações. Por exemplo: Noël criou uma personagem que não se aceita, é essencialmente mal-resolvida e pra lá de desiludida . No entanto, pela forma como Ever descreve o que acontece consigo e como é o mundo ao seu redor, a personagem parece madura e perfeitamente consciente de sua condição. Um probleminha de verossimilhança que a teoria literária explica.
“Para sempre” é uma leitura óbvia e vazia. Além disso, não há nada de novo na história. A autora já comentou em entrevistas que não vê nenhuma semelhança entre sua produção e a de Meyer. Bem, talvez ela não tenha lido “Crepúsculo” ou, então, não queira admitir o óbvio. No entanto, pra não dizerem que sou radicalmente contra “Os imortais”, vale lembrar que toda forma de leitura é um entretenimento válido. Dá pra se distrair e dar uns leves suspiros. Numa realidade em que se faz de tudo para incentivar que o jovem leia, chega, enfim, mais um punhado de páginas que vão pelo menos garantir que cada adolescente leia com algum desejo um livro do início ao fim.
A escritora promete outros cinco livros. O próximo é “Lua azul”, que deve ser lançado ainda neste semestre. Sim, a série também vai virar filme. Uma produtora norte-americana já comprou os direitos audiovisuais e, em breve, teremos um longa-metragem ou um seriado. Pais, mães e professores: se preparem para a nova temporada!
‘Noturno’ ressuscita vampiro clássico
12 de fevereiro de 2010
Essa é pra quem odiou o clã dos vampiros bonzinhos e vegetarianos de Stephenie Meyer na saga ‘Crepúsculo’, está horrorizado com a personalidade filosófica que L. J. Smith escreveu para o protagonista da série ‘Diários do vampiro’ ou não suporta acompanhar o blá-blá-blá adolescente dos volumes intermináveis de ‘The house of night, de P. C. Cast e Kristin Cast . De Guilhermo Del Toro e Chuck Hogan, ‘Noturno’ (Rocco, 464 páginas) resgata o lado frio e sanguinário dos sanguessugas e promete prender o leitor numa trama misteriosa e envolvente.
Embora tenha sido lançado nas livrarias do país em agosto do ano passado, o primeiro livro da ‘Trilogia da escuridão’ ainda parece não ter adquirido muita popularidade entre os brasileiros. No entanto, a obra é um prato cheio para aqueles que ainda creem que deve haver sangue no olhar de todo vampiro. Estreante na literatura, Toro (famoso pela direção de filmes como ‘O labirinto do fauno’, ‘Hellboy I’ e ‘Blade II’) se une a Hogan, já consagrado na área literária, para construir uma narrativa ao melhor estilo dos mestres Bran Stocker e Anne Rice.
Tudo começa quando um boeing vindo de Berlim aterrissa no aeroporto nova-iorquino JFK. Contudo, depois de pousar, todas aos luzes do avião se apagam, o sistema de comunicação para de funcionar e as janelas permanecem com as persianas abaixadas, o que torna o boeing um verdadeiro cofre. Uma equipe de emergência tenta entender o que aconteceu com o enorme caixão branco parado na pista sob o céu noturno. Quando consegue penetrar no interior do avião, o grupo descobre que todos os passageiros parecem mortos. Mas essa será apenas a primeira de todas as descobertas assustadoras que ainda estão por vir. A partir daí, uma série de acontecimentos se desenrola, revelando que uma invasão de vampiros em massa é apenas questão de tempo.
Porém, diferentemente dos últimos românticos sanguessugas lançados no mercado, as criaturas da ‘Trilogia da escuridão’ são perversas e completamente irracionais. Pode-se dizer que os vampiros de Toro e Hogan são uma espécie de zumbi que, ao perfurar o pescoço da presa, espalha algo semelhante a um vírus que se instala no corpo da vítima, consumindo-a e destruindo-a igual a um câncer. Aliás, até mesmo a concepção do modo como um vampiro se alimenta é diferente para os autores. Esqueça os caninos pontiagudos. Na série, os chupadores possuem uma língua comprida que é lançada em direção à jugular dos humanos.
Uma excelente pedida de entretenimento, ‘Noturno’ ainda está ganhando força no mercado editorial brasileiro. No município, não é possível adquirir o livro sem antes solicitar o pedido de compra, mas, na Biblioteca Pública Municipal, ele está disponível para empréstimo. Já tem ideia de leitura para as férias? Então, corra até à biblioteca. Antes que seja tarde.
O invisível do visível
8 de fevereiro de 2010A parte invisível do visível
A parte invisível do visível.
De resto conhecer mais o quê?
O Manifesto do Invisível.
Os lobos são a cabeça do anjo que não se vê.
Sangue no Focinho e Cobardia.
(Gonçalo M. Tavares, in “Investigações. Novalis”)
A parte invisível do meu visível é a parte que eu gostaria que todos vissem, mas que quase ninguém vê. Difícil, uma vez que o invisível do meu visível é, muitas vezes, invisível até para mim mesma. Meu visível não é melhor que meu invisível, disso bem sei. Quantas vezes faço caras e bocas quando, no fundo, não é a careta que quero mostrar, mas a parte visível mais possível do meu invisível nem sempre muito provável…
Pobre blobfish
8 de fevereiro de 2010
"Se eu fosse mais bonitinho, resolveria?"
O peixinho acima é da espécie Psychrolutes marcidus, mas é conhecido por blobfish (peixe borrado ou peixe machado). O nome certamente vem do corpo gelatinoso do bicho e da pouca densidade com relação à água, o que faz ele parecer mais um borrão de tinta do que um peixe que vive nas partes mais profundas do oceano.
Conhecido por ser o “mais feio do mundo”, o pobrezinho está em risco de extinção por causa da pesca de arrasto na Austrália e na Nova Zelândia, que está dizimando a espécie. E o pior é que o feioso não é nem comestível! O azar é que ele vive pertinho de delícias como o camarão e a lagosta. Aí, já viu…
O gorducho inchadão pode chegar a 30,5 centímetros de cumprimento e vive a cerca de 800 metros de profundidade. Além disso, se alimenta de detritos. Coitadinho… Já quase não é visto pelo homem por viver em lugares tão profundos, agora mesmo é que não será visto se acabarem com ele.
Tô dizendo: daqui a uns anos, bichinhos como o elefante só serão vistos em museus de história natural. E bem empalhados!
Caloura de autoescola
8 de fevereiro de 2010Há alguns meses resolvi tirar a carteira de motorista. Apenas categoria B, porque seria loucura eu me arriscar a ser motociclista já que mal consigo parar sobre uma bicicleta. Não que eu morresse de desejo de aprender a dirigir e desbravar as rodovias gaúchas, me aventurando num carrinho popular de óculos escuros e cabelos ao vento. Nada de Thelma & Louise ou algo assim. Eu adorava andar de carro, mas apenas como passageira. Sempre fui muito parecida com os cachorros nesse aspecto. Eu não podia ver uma porta de carro aberta que saía correndo para ocupar um dos assentos antes de qualquer outro passageiro. Depois, só curtia as embaladas do carro, sempre atenta ao movimento ao redor. A única diferença é que se alguém me visse com a cara na janela não encontraria um animal peludo com meio metro de língua babosa para fora.
E assim os anos foram passando. Eu sempre muito bem do lado do passageiro e alguém sempre disponível para dirigir por mim. Um pouco de egoísmo e preguiça, talvez. Nos últimos anos, o embalo do carro costumava ser tão bom que bastavam cinco minutos e eu já estava dormindo como um bebê na cadeirinha. Mas, então, a profissão exigiu: ou eu saía da comodidade e aprendia a dirigir ou dependeria eternamente das caronas dos meus colegas de trabalho, o que, muitas vezes, atrasava o lado deles. Quem me conhece sabe que eu detesto perturbar meu semelhante. Logo, a primeira opção foi a que me restou. Enquanto muitos mal esperam completar dezoito anos para providenciar a CNH, eu já estava com vinte e quatro e nem um pouco ansiosa. Mas, mesmo assim, assisti a todas as aulas teóricas e passei na prova.
Como se sabe, depois da teoria vem a prática. Assim, me inscrevi para as aulas práticas e, algumas semanas depois, comecei minhas lições de direção. Completamente sem noção, tive de ficar muito atenta às explicações do instrutor. Para mim, automóveis eram máquinas indomáveis. Eu pensava que jamais conseguiria movimentar minhas pernas e meus braços de maneira independente o bastante para conseguir controlar uma embreagem, um acelerador, um freio, um volante e ainda trocar as marchas. Não entendia como alguém com apenas quatro membros articulatórios pudesse ser capaz de conciliar tantos movimentos ao mesmo tempo. Minhas mãos e meus pés eram muito dependentes uns dos outros. Todas essas preocupações na cabeça sem ainda falar nos pedestres! Meus Deus! Eu acreditava que atropelaria todos aqueles que pensam que ruas são calçadas. Eu estava muito receosa antes da primeira aula.
Bom, ainda estou tirando a CNH. Fiz algumas aulas, não matei ninguém além do carro, que morreu inúmeras vezes nas esquinas não preferenciais, me surpreendo a cada dia com a minha calma e o meu autocontrole, já consigo trocar as marchas e controlar os pés nos pedais… Estou em processo, como sempre estamos. Nem quero pensar na prova prática. Por enquanto, só quero recuperar os anos que perdi sem saber que ser motorista é tão bom quanto ser passageiro. Aliás, desde que comecei a tomar minhas aulas de direção, me dei conta de uma porção de coisas, inclusive que a gente aprende a ser pedestre quando está aprendendo a ser motorista. Depois de ver o quanto é duro para o condutor ter de desviar de obstáculos de carne e osso, redobrei minha atenção enquanto pedestre. Por que atravessar fora da faixa se há uma? Por que andar no meio da rua se há calçadas? Por que atravessar em qualquer lugar e achar que tem direito a isso se a prudência deve ser comum tanto ao pedestre quando ao motorista?
Dizem que nosso comportamento no trânsito é semelhante ao modo como nos comportamos no dia a dia. Não sei até que ponto isso é verdade, mas creio que ser prudente é válido em todas as situações. É preciso estar atento e, muitas vezes, abrir mão de um direito se o outro descumpriu com seu dever e colocou quem está ao redor em risco. Estava lá na apostila, que, a propósito, eu li todinha. Novamente, a experiência de me colocar no lugar do outro me ajudou a ver o que eu não enxergava antes.
Mais talentos despertados
1 de fevereiro de 2010Ilustração de Maicon Luis Bergmann, 14 anos

- Ilustração de Maicon Luis Bergmann, 14 anos

- Desenho de Julio Cardoso

- “Avatar da Beyoncé”, por Franciéle Cardoso

- Desenho de Rafael Becker, 11 anos

- Ilustração de Diego Aguiar da Silva
