Futebol não é e nunca foi um esporte do meu interesse. Para mim, as partidas de final de semana transmitidas pela televisão não passam de um excelente pretexto para dormir, estourar pipocas ou ler alguma coisa. Não há nada mais entediante do que ser obrigada a assistir aos vinte e dois sujeitos chutando a gol por cerca de noventa minutos. Logo, não é difícil imaginar o quanto eu sofro em tempos de Copa do Mundo. Todo dia, um jogo. Isso quando não ocorrem dois ou três jogos em menos de vinte e quatro horas. É futebol no café, é futebol no almoço e é futebol na janta. Nas rodas de amigos, o assunto? Futebol. Na escola? Futebol. E assim é com os jornais, as emissoras de rádio e as revistas: futebol, futebol, futebol. Contudo, quem me dera se todo ano fosse de Copa.
Se todo ano fosse de Copa, os meios de comunicação divulgariam muito mais as notícias boas do que as ruins. Os telejornais, por exemplo, parecem ter dedicado menos espaço às tragédias desde que a competição teve início. Será que a criminalidade diminuiu ou nosso olhar é que foi direcionado para outros acontecimentos? O fato é que, em tempos de Copa, depois de trabalhar o dia todo e chegar em casa para assistir à televisão, o cidadão não é bombardeado pelo drama do noticiário. Ele liga a TV e recebe notícias do futebol, com todas as boas-novas de esperança, de fé, de alegria, de confiança e de torcida. O brasileiro vai dormir mais feliz e acorda cheio de expectativas.
Se todo ano fosse de Copa, nossa gente se vestiria mais de Brasil. As cidades estariam permanentemente enfeitadas de verde-amarelo e todas as casas teriam uma bandeira brasileira em suas janelas. Em vez de camisetas ‘I love NY’, desfilaríamos com orgulho em nossos moletons ‘Eu amo o Brasil’. Pintar as unhas com as cores da bandeira seria moda constantemente e colorir os cabelos de azul seria uma prática normal entre os adoradores da pátria.
Se todo ano fosse de Copa, seríamos mais brasileiros. Todos saberíamos o hino nacional de cor e o cantaríamos como quem entoa a canção da própria vida. Contaríamos com ufanismo nossa história e apreciaríamos com verdadeiro patriotismo nossa arte. Investiríamos mais em saúde e educação, nos sentiríamos mais responsáveis ao eleger nossos governantes, teríamos menos ignorância. Eternamente banido estaria aquele que ousasse insinuar que outra nação pudesse ser melhor que a nossa.
Se todo ano fosse de Copa, haveria maior união entre os povos. Todas as nações teriam as mesmas chances de desenvolvimento. A política e a economia seriam discutidas com espírito esportivo, de maneira justa e transparente, e diante do mundo inteiro. Norte e sul-coreanos esqueceriam as desavenças, palestinos e israelenses viveriam em paz, africanos e europeus seriam iguais, norte e sul-americanos destruiriam a hierarquia.
Entretanto, a Copa do Mundo acontece a cada quatro anos. Como só nos lembramos que somos brasileiros em tempos de Copa, constituímos um povo e uma nação também apenas a cada quatro anos. Mesmo não gostando de futebol, eu não me importaria de ter de assistir aos jogos todos os dias se bastasse isso para que o meu país fosse mais brasileiro. Não é possível ser inteiro pela metade, logo, não é possível se dizer patriota apenas quando a nação precisa de torcida. Torcedor de verdade é aquele que vive uma Copa do Mundo todos os anos e jamais se envergonha de dizer que é verde-amarelo.
Se todo ano fosse de Copa
23 de junho de 2010Namorados
23 de junho de 2010Recostada no ombro do namorado, a moça pergunta:
– E se a gente fugir?
– Seu pai me encontraria e depois me torturaria até a morte.
– Não diga coisas horríveis.
– Poderíamos nos matar antes…
– Como Romeu e Julieta… Lá em casa tem umas plantas venenosas…
– Você toma o veneno primeiro.
– Ora, e por que eu?
– Porque a Julieta é quem bebe primeiro.
– E como eu vou saber se você vai beber depois?
– Você tem que confiar em mim. A confiança é a base do amor.
– Hmmm…
– Você não confia em mim?
– Você vai beber?
– Por você eu beberia qualquer coisa…
– Até sangue?
– Sangue? Por que sangue?
– A maldição do Drácula. Pela amada, ele foi condenado a viver uma vida imortal e a se alimentar de sangue. Você beberia? Por mim?
– Por você eu beberia até aquela sopa de cebola da sua mãe de que você tanto fala…
– Não fale assim. É receita de família… Já sei! E se a gente se casasse?
– Casar? Mas eu mal comecei a faculdade…
– O que é que tem? Minha bisavó se casou com treze anos…
– Esses eram outros tempos. E aposto que o seu bisavô era rico.
– Era…
– Não disse? O que eu ganho nem dá pra pagar a faculdade e você não trabalha. Como sobreviveríamos?
– Eu tomo primeiro…
– O quê?
– O veneno. Não há solução. Não suporto ficar sequer mais um dia longe de você…
– Também não…
– Mas será que a gente vai ser feliz no vale dos suicidas?
– Não me parece…
– O que a gente faz?
– E se a gente simplesmente esperar?
– Esperar o quê?
– O tempo passar…
– Mas e se o amor não resistir?
– Resiste, sim…
– Você jura?
– Juro.
– Pra sempre?
– Por todo o sempre. Agora vamos entrar? Tá frio aqui fora.
– Será que nossos pais já terminaram de conversar?
– Não sei… Você está preocupada?
– E se eles não se entenderem?
– Acho que já teriam acabado o papo.
– E se eles me acharem muito nova?
– Eu espero você crescer mais um pouco.
– E se eles não se gostarem?
– Não vai mudar nada. O que importa é que a gente se gosta.
Histórias de amor
23 de junho de 2010 Como todas as outras datas comemorativas, o Dia dos Namorados acontece cotidianamente. No entanto, é somente no dia 12 de junho que nos damos a chance de parar para refletir sobre o amor. E é justamente nesse momento que percebemos a necessidade incontestável que temos por romance.
Prova disso é que, desde os mais remotos tempos, a humanidade tem inserido passagens de amor em suas histórias e encantando povos e gerações ao perpetuá-las. Essas narrativas são capazes de nos despertar uma sensação de completude ao demonstrarem que o amor confere força e coragem, torna belo o trivial e atenua os obstáculos. As barreiras, antes intransponíveis, podem parecer facilmente destrutíveis.
Assim, toda história que se preza não deve descartar de sua trama algumas doses de amor, mesmo que respingada por pequeníssimas gotas de romantismo. Se pensarmos sobre a literatura, veremos que as mais famosas narrativas são também aquelas que apresentam os mais comoventes contos de amor, tenham tido ou não um final feliz.
Lembremo-nos do clássico dos clássicos ‘Romeu e Julieta’, de Shakespeare; de ‘Abelardo e Heloísa’, seja na versão de Rosseau ou de Feuerbach; de Heathcliff e Caty, em ‘O morro dos ventos uivantes’, de Emily Brontë; de Riobaldo e Diadorim, protagonistas de ‘Grande sertão: veredas’, de Guimarães Rosa; ou pensemos ainda no recente casal Edward e Bella, da saga ‘Crepúsculo’, de Stephenie Meyer. Ora, uma história de amor é ou não uma das principais responsáveis por folhearmos mais ardorosamente as páginas de um livro?
E não pense que os casais imortalizados pelo amor habitam somente o meio dominado pela escrita. Nos quadrinhos, encontramos casais infantis como Chico Bento e Rosinha, Cascão e Maria Cascuda, Bolinha e Luluzinha. Também há duplas adultas que enredam ficções de aventura e que se tornaram mais apaixonadas (e apaixonantes) através das lentes hollywoodianas, como é o caso de Clark Kent e Lois Lane, de Superman, e Peter Parker e Mary Jane, de Spiderman. Além disso, temos no mundo das animações Mickey Mouse e Minnie, Pato Donald e Margarida, Bambam e Pedrita e, mais atualmente, Shrek e Fiona. Até na história da bíblia encontramos Adão e Eva e não há quem já não tenha ouvido rumores inclusive a respeito de Jesus Cristo e Maria Madalena.
Se olharmos para o lado de fora – o lado dos espectadores –, igualmente encontraremos histórias reais de casais enamorados que se eternizaram pelo seu amor, enamorando, assim, todos ao redor. Cleópatra e Marco Antônio, John Lennon e Yoko Ono, Napoleão e Josefina, Lampião e Maria Bonita, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, Salvador Dalí e Gala, Jorge Amado e Zélia Gattai são casais lembrados, entre outras coisas, pelo amor.
Portanto, histórias de amor são indispensáveis à existência. Contudo, para que nos confiram aquela sensação de completude, os romances devem manter certo equilíbrio, ingrediente essencial para que o enredo não se torne nem muito meloso nem muito morno, nem manteiga derretida nem ‘mamão com açúcar’. Nada de artifícios apelativos: o amor deve possuir uma trama que saiba moderar a medida certa entre o sorriso e a lágrima, entre o grito e o sussurro, entre o oito e o oitenta. Amor demais enjoa e de menos finda. No final das contas, o amor bom de viver não é aquele que gostaríamos de ter lido, mas aquele que escrevemos dia a dia.
O especialista em bigornas
7 de junho de 2010 Era especialista em bigornas. Lato em Harvard, strictu em Stanford e doutorado em Sorbonne. Não havia ninguém no planeta que entendesse melhor de bigornas do que ele. Por causa disso, passou a ser convidado para palestrar nas universidades mais importantes do mundo, as quais, interessadas em aprofundar o conhecimento sobre bigornas, pagavam quantias exorbitantes para ouvir uma hora e meia de palestra.
Professores e estudantes lotavam os auditórios institucionais para beber as palavras do doutor em bigornas. Os mais inseguros anotavam cada suspiro, franzindo a testa e balançando afirmativamente a cabeça, o que demonstrava um alto grau de intelectualidade, mesmo que não entendessem aquilo com que concordavam. Os metidos a sabe-tudo puxavam uma salva de palmas a cada afirmativa que apenas eles haviam entendido em meio a todo o público. Os ignorantes abriam a conferência com a leitura do currículo ou, então, apareciam vez ou outra para verificar a temperatura da água mineral disponibilizada pela instituição.
O ritual pré-conferência é sempre o mesmo. O doutor chega ao palco ladeado por aqueles membros da reitoria e dos departamentos que são pagos somente para aparecerem nesse tipo de evento e acariciarem as costas e o ego dos palestrantes. Depois de algumas risadas e palavras difíceis, cada um ocupa seu lugar à mesa de autoridades para os cinco minutos de fama e de promoção à instituição. Então, um ignorante faz a leitura do currículo e o conferencista, sob uma chuva de palmas, pigarreia, ajeita os óculos e começa:
– É delicado definir bigorna. Conhecemos bem o ossículo localizado na orelha média e a peça do automóvel chamada barbatana, ambos conhecidos como bigorna. Entretanto, a bigorna de que venho falar é aquela que, originalmente, deriva do latim ‘incudere’, verbo que designa o golpe e a forja.
As cerca de mil conferências dadas pelo especialista sobre o tema começavam sempre assim. Inclusive o palestrante sabia exatamente em que ponto de sua fala fazer algumas pausas propositais, a fim de incitar os aplausos. Então, prosseguia:
– Utilizada largamente por ferreiros até o fim do século dezenove, a bigorna teve um papel decisivo na confecção das espadas mais potentes da Idade Média. Há uma série de estudos que visam a comprovar que a bigorna encontrada na semana passada nas terras longínquas da Grã-Bretanha tenha sido responsável pela criação da lendária Excalibur. A peça foi encontrada no fundo do lago antigamente habitado pela Dama do Lago, fada-sacerdotisa de Avalon que entregou a espada mágica ao Rei Arthur.
Ter domínio acerca da literatura, da história e da mitologia é essencial para que qualquer palestrante seja amplamente aplaudido. Quando o especialista falava sobre a relação da bigorna com a Excalibur, o público arregalava os olhos, proferia um sonoro ‘oh’ e começava a bater palmas de maneira frenética. Era a hora de beber um gole d’água para continuar:
– A bigorna se constitui de um bloco maciço de ferro fundido, tendo uma ponta rombuda e outra pontiaguda. Na parte superior, possui uma plataforma bastante plana, sob a qual há uma densa base de ferro também fundido. Essa base de ferro, por sua vez, é suportada por um alicerce duplo e conicamente invertido, muito forte e largo nas extremidades, para que o ferreiro possa bater com força. Quem é que entende o que é uma bigorna?
Nessa hora, a plateia ficava cega, mas ninguém admitia que não pudesse enxergar. Em resposta ao questionamento, novas palmas. Para não se sentir tão estúpido, o ignorante verificava a água. Só depois é que o palestrante projetava no telão a ilustração daquilo que verbalizara, o que fazia a plateia suspirar, muito mais pelo alívio do que pela catarse. E assim o especialista seguia sua palestra, atordoando os presentes com mais uma hora de palavras difíceis, permeadas de aplausos e goles d’água.
Numa ocasião, não tendo com quem deixar o filho de sete anos, uma doutora resolveu assistir à palestra do especialista com o menino a tiracolo. Enquanto a mãe se embriagava com a sabedoria do palestrante, o menino se remexia impaciente em seu assento. No momento em que o homem lançou a pergunta e projetou a imagem no telão, os sentidos da criança voltaram todos para a gravura. Sem ainda entender que há perguntas que não devem ser respondidas, o pequeno esticou um dos bracinhos e gritou ‘eu!’. Ruborizada de vergonha, todos os esforços da mãe para que o menino se calasse foram inúteis. O palestrante deu um sorriso e acenou com a cabeça, incentivando a criança a continuar. O jovem se levantou e, sem dúvidas, explicou:
– Bigorna, tio, é aquela coisa que o Pica-Pau bate sempre na cabeça do Zeca Urubu.
Depois dessa contribuição, o especialista em bigornas revisou todo o referencial bibliográfico de suas palestras. Ele descobriu que nenhum dos livros sobre bigornas falava em Pica-Pau ou Zeca Urubu. Foi então que ele descobriu que o especialista é aquele sujeito que entende tanto de um assunto específico que se torna incapaz de compreender todos os outros.
Visão longitudinal
2 de junho de 2010– Tá enxergando?
– Não.
– E agora?
– Também não.
– Vou chegar mais perto. E agora?
– Não adianta, eu não enxergo.
– Nossa, você tá mesmo muito mal…
– É que eu só enxergo de longe. Uma deficiência chamada visão longitudinal.
– Nunca ouvi falar. Desde que nasceu?
– Não. Desde que entrei pra escola. Antes eu não enxergava nada que estivesse a menos de cinco metros de distância. Depois foi aumentando para dez, depois quinze, depois vinte… E com o passar do tempo só agravou. Quando entrei pra faculdade, ficou pior… Quando me graduei, estava quase cego a tudo que estivesse a menos de cem metros…
– Nossa, que bizarro! Você não enxerga nada que esteja a menos de cem metros de distância?
– Cento e cinquenta, pra ser exato. Diminuiu depois que parei os estudos, mas aumentou um pouco quando fui para o exterior.
– Então você não está me vendo?
– Pra falar a verdade, não. Não estou te vendo.
– Então como é que você faz pra viver?
– Tento viver enxergando sempre à frente dos outros.
– Como assim?
– É muito simples. Se todos os que estão ao meu redor enxergam, no máximo, cerca de trinta ou quarenta metros à frente e conseguem ver que há um navio no horizonte marítimo, eu dou um pigarro e digo que vejo a costa do próximo continente.
– Mas isso não deixa as pessoas irritadas?
– Claro que deixa. Mas, acima de tudo, me deixa satisfeito.
– Mas como pode um homem que não enxerga o próprio nariz se gabar porque enxerga o nariz quebrado da esfinge?
– Já imaginou se, além do meu, nem o nariz da esfinge eu pudesse enxergar?
– E as pessoas acreditam em você?
– Nem todas. Algumas ficam de queixo caído, outras simplesmente ignoram. Prefiro aquelas que não questionam. Sabe como é… Ter de dar toda aquela explicação… É melhor que apenas acreditem e se calem…
– E você nunca teve vontade de tocar as coisas que enxerga?
– Sim, já tive… Uma vez me apaixonei por uma limpadora de chaminés… Não deu certo. Sempre que tentava me aproximar, eu a perdia de vista. Então preferia ficar do alto da minha cobertura, simplesmente admirando-a…
– Como você faz pra ganhar a vida?
– Me formei em Medicina, mas sou controlador de voo. A única coisa que, de fato, consegui fazer.
– Amigos?
– Vivem no prédio da frente. Acenam todas as manhãs com a xícara de café na mão.
– Sei lá… Sua vida parece tão solitária…
– A gente se acostuma… Prefiro pensar que estou sempre um passo à frente do restante das pessoas e que fui divinamente privilegiado com uma visão de super-herói. Manter-me distante e, principalmente, no alto é uma necessidade…
– Evidente… Ser herói é mais confortável. Tenho ainda uma curiosidade…
– E qual seria?
– Por que você anda com esse livro debaixo do braço se não pode lê-lo?
– Ora, e desde quando é preciso enxergar para se meter a ler?
Quando vi você (Janes Velaso)
2 de junho de 2010Quando vi você pela primeira vez,
soube que minha busca pelo amor
havia terminado.
Eu tinha 17 e você, 15.
Era o início de uma tarde de verão.
Num vestido florido,
ia para a escola
e, de bermuda branca,
estava parado no portão.
Eu olhei para você,
você olhou para mim
e, assim,
pude enxergar minha existência.
Meu passado,
meu presente
e meu futuro
se alinharam,
e pude ver
que você cruzara meu caminho
de maneira irreversível.
Vorlesewettbewerb incentiva Débora
21 de maio de 2010

Débora se dedica ao estudo da língua alemã na escola e no cursinho
Cinquenta por cento alemã, vinte e cinco por cento espanhola e vinte e cinco por cento portuguesa. Assim se autodefine Débora Parraga da Silva, 15 anos, vencedora do terceiro lugar no Concurso de Leitura em Língua Alemã da Rede Sinodal de Educação, ocorrido na última semana. No entanto, segundo a jovem, apesar de a família do lado materno ter origem alemã, ninguém fala a língua. “Alguns até arriscam o dialeto, mas não há fluência”, conta. A classificação de Débora no concurso de leitura (ou ‘vorlesewettbewerb’, para os alemães) prova que aprender alemão não é exclusividade de quem possui contato direto com o idioma, além de não ser tão complicado quanto se pensa.
Estudante do colégio Gaspar Silveira Martins, integrante da banda da escola e membro da Orquestra Municipal, Débora ainda encontra tempo para estudar outras línguas. Além do inglês, a jovem se dedica ao idioma germânico desde a segunda série do ensino fundamental. “No início, assistia às aulas porque estavam incluídas na base curricular. Só depois é que estudar alemão se tornou uma opção”, explica. Além das duas horas-aulas semanais dedicadas a aprender a língua, ela faz cursinho para aperfeiçoar e fixar o conhecimento. “Revisar constantemente o conteúdo e fazer as lições em aula e em casa é fundamental”, destaca.
Débora acredita que é importante saber o idioma num município como Venâncio. “Aqui, sempre encontramos pessoas falando alemão. É essencial saber a língua quando se trabalha no comércio, por exemplo”, diz. Para ela, todas os idiomas merecem destaque, e não apenas o inglês, como comumente se pensa. “Eu gostaria de apender muitas outras língua, como espanhol, italiano e francês. Será sempre um conhecimento extra”, afirma. Quanto ao alemão, Débora conta que o mais difícil é conseguir pronunciar certos conjuntos de sons que não existem no português. “Para encarar o concurso, pratiquei muito a leitura em voz alta. Depois, lia para a minha mãe, que, mesmo sem entender uma palavra, conseguia me dizer se a dicção estava boa ou não”, lembra.
A estudante acredita que o esforço valeu a pena. “Eu achava que não me daria muito bem porque não tinha contato com a língua. Nem mesmo meu sobrenome é alemão, ao contrário de todos os participantes do concurso. Consegui a classificação somente por meio do estudo, sem influências familiares. Essa evolução me incentiva a continuar. Minha mãe acha que é muita coisa participar de tantas atividades ao mesmo tempo. Mas, por mim, eu faria muito mais”, confessa.
Até que ponto ser politicamente correto?
21 de maio de 2010Dia desses ouvi uma piadinha infame aconselhando que agora não se deve mais pedir ‘nega-maluca’ na padaria. O politicamente correto seria solicitar ao padeiro uma ‘afrodescendente com deficiência mental’. Implícita no humor negro e pra lá de grosseiro está uma crítica zombeteira à verdadeira compulsão das políticas públicas pela pregação do emprego de expressões politicamente corretas. Segundo especialistas em direitos humanos, neutralizar a linguagem discriminatória seria uma maneira de amenizar o preconceito e trabalhar para uma sociedade mais inclusiva e igualitária.
Está certo que utilizar expressões como deficiente visual/auditivo e portador de necessidades especiais em vez de cego/surdo e aleijado, além de soar mais agradavelmente, não parece pejorativo nem ofensivo. Entretanto, a política do correto parece ter ultrapassado os limites do bom-senso e extrapolado o grau de permissividade. A situação chegou ao ponto em que o sujeito (desculpem-me, quis dizer ‘indivíduo’) teme abrir a boca (ops, ‘descerrar os lábios’) e acabar se expressando de maneira inadequada.
No jargão pedagógico, por exemplo, termos ditos politicamente corretos invadiram a sala dos professores, deixando-os transtornados, praticamente emudecendo-os. Em todas as palestras educacionais a que se assiste, há sempre um infeliz conferencista que condena o emprego da palavra ‘professor’. Alega-se que, etimologicamente, o termo faz referência àquele que ‘professa’, ou seja, àquele que ‘dita as regras’. Ora, além de ensinar gramática, haverá crime pior na atualidade do que ‘ditar regras’ a alunos? Aliás, aprendi que também não é politicamente correto utilizar o vocábulo ‘aluno’. Segundo sabe-se lá quais etimólogos, ‘aluno’ teria se originado da combinação do prefixo de negação ‘a’ com o substantivo ‘lumen’ ou ‘luminis’ (luz). Logo, ‘aluno’ seria ‘aquele que não tem luz’.
Para quem tem um mínimo de bom-senso, acreditar nessa baboseira é uma verdadeira afronta ao intelecto, diga-se de passagem. Primeiro, porque ‘professor’, segundo a verdadeira etimologia, não é somente o que professa, mas aquele que se dedica e cultiva. Do radical em latim ‘professum’, significa ensinar, mostrar, confessar. Segundo, porque também a tradução do vocábulo ‘aluno’ como sendo ‘aquele que não tem luz’ é outra grande invenção de mentes insanas. Existente desde antes de Cristo, ‘aluno’, do latim ‘alumnus’, deriva do verbo ‘alere’ (alimentar, desenvolver, fortalecer) e faz referência à criança de peito, isto é, ao menino ou menina que mama na mãe e, com isso, se cria e se sustenta. Belas definições, não? Somente o conhecimento é capaz de nos armar contra as calúnias. Nesse caso, educador (o que cria e nutre) e educando (o que é criado e nutrido) não são (e nem devem ser) as únicas palavras a serem utilizadas por pedagogos e docentes.
Outro exemplo inacreditável é a versão politicamente correta da cantiga infantil ‘Atirei o pau no gato’. Eu, que ficava imensamente feliz ao cantar que atirava o pau no gato (e nem por isso sou capaz de ferir uma mosca), fico horrorizada quando ouço uma pobre criança ser obrigada a cantarolar ‘Não atire o pau no gato, porque isso não se faz; o gatinho é nosso amigo; não devemos maltratar os animais’. Ora, quem inventou essa versão certamente subestima a capacidade infantil de discernir o real do imaginário. A ludicidade e o jogo ficcional se perdem quando se ensina que devemos ser politicamente corretos inclusive na hora de imaginar e de sonhar.
Há casos em que o politicamente correto ainda não é o mais correto. Veja o que ocorreu com a palavra ‘velhice’, por exemplo. Havia uma época em que o adequado era dizer ‘terceira idade’. Ninguém mais queria ser velho; a moda era ‘estar na terceira idade’. Hoje, é uma afronta a qualquer velhinho (ou seria ‘idoso’?) dizer que ele está na ‘terceira idade’. Ele dará com a bengala na sua cabeça e dirá, zangado: ‘Não fale asneiras! Estou é na ‘melhor idade’!’. Céus! Melhor é ficar calado e chamar pelo nome.
‘Interrupção da gravidez’ ou ‘aborto’; ‘inadaptado’ ou ‘bandido’; ‘alcoolizado’ ou ‘alcoólatra’; ‘homossexualismo’ ou ‘homossexualidade’; ‘funcionário’ ou ‘colaborador’? Afinal, até que ponto é correto ser politicamente correto? Perguntinha difícil. Parece que ser politicamente correto está na moda, é chique, denota elegância e domínio vocabular. Sei lá. Nunca liguei muito pra moda, mas também nunca fui cafona. Se quiser evitar discussões, talvez o melhor seja ficar mudo (quer dizer, se tornar um ‘portador de deficiência vocal’).
A lagarta e a borboleta
21 de maio de 2010 Deitadas sobre a grama do jardim num dia ensolarado de primavera, duas primas adolescentes observam os insetos:
– Sabe o que eu queria descobrir, Antonieta?
– Hmm?
– Por que é que Deus não nos fez como as borboletas…
– Ãhn? Como assim? Você queria voar?
– Não! Veja bem: se eu quisesse voar, teria falado em pássaros. Mas eu estou falando em borboletas, Antonieta… Borboletas…
– Agora mesmo é que não entendi nada! O que as borboletas tem que você gostaria de ter?
– Ora, Antonieta… Você não percebe a autoridade que as borboletas têm no que se refere à vida?
– Nossa! Estou me sentindo tão burra neste exato momento…
– Não seja tola! O que eu quero dizer é que todos deveríamos ser como as borboletas porque o fato de elas terem sido lagartas não as impede de se tornarem borboletas. Pelo contrário: justamente por terem sido seres rastejantes é que um dia conseguem voar.
– Eu sabia que Esopo e La Fontaine não seriam boas influências com todos aqueles bichos e aquelas morais impossíveis… Olha só: eu não sou o tipo de pessoa com quem se pode ter esse papo filosofal…
– Filosófico.
– Mas em Harry Potter não era filosofal…?
– Aff! Esquece.
– Eu falei.
– Tudo o que eu estou querendo dizer, Antonieta, é que nós deveríamos ser como as borboletas, porque as borboletas, Antonieta, as borboletas vivem uma vida de lagartixa e, depois, dão a volta por cima e ficam maravilhosas. Entendeu?
– A tia Clô ficou maravilhosa depois de viver uma vida de lagartixa ao lado do tio Ricardo. E ela não é uma borboleta.
– É disso que eu estou falando, Antonieta! Você conseguiu compreender minha metáfora. O mundo não está perdido!
– Também não precisa humilhar.
– Sabe o que eu acho? Que a tia Clô é uma exceção.
– A Tina também é outra exceção. Lembra de quando ela ficou doente? Todo mundo achou que ela morreria naquela cama de hospital…
– É mesmo… E hoje está tão bem…
– E ela não é uma borboleta.
– É verdade… Agora me lembrei do meu pai… Sei que não é muito viril comparar um homem a uma borboleta, mas ele foi a mais infeliz das lagartas quando ficou desempregado… Passamos tantas dificuldades…
– Mas depois ele criou asas, não foi?
– Sim… Sabe o que eu acho? Que Deus escolhe algumas pessoas para se tornarem borboletas…
– Eu já acho que todos somos borboletas… Todo mundo pode se transformar…
– Você me surpreende a cada dia, Antonieta…
– Isso é porque eu sou uma borboleta, prima… Assim como você…
– É… Ainda que não tenhamos asas…
– Também acho que todos temos asas… As tuas asas, por exemplo, é que fazem você ficar filosofando e pensando essas coisas… Essas metáforas, como você diz…
– Sim… Minhas asas são as metáforas… O que será que somo agora, Antonieta? Lagartas ou borboletas?
– Um pouco das duas coisas, eu acho… Quando a gente começou esse papo eu estava me sentindo uma lagarta…
– E agora?
– Uma lagarta um pouco mais sábia…
– Acho que isso pode ser considerado como uma borboleta, né?
– Acho que sim…
E embora continuassem deitadas sobre a grama, as duas primas alçaram voo rumo à transformação constante e ininterrupta do dia a dia.
Paradoxos de mãe
12 de maio de 2010Penso que o verso mais popular da literatura brasileira a tratar sobre mães tenha sido escrito pelo maranhense Coelho Neto. Segundo o autor, “ser mãe é padecer no paraíso”. Desde que foi publicado, em meados do século XIX, o trecho do poema “Ser mãe” se tornou uma espécie de máxima que vem sendo repetida de Norte a Sul do país. Eu, por exemplo, escuto-a desde muito pequena, apesar de parcialmente tê-la compreendido só depois de grande.
“Ser mãe é padecer no paraíso.” Há muitos conceitos subentendidos nessa pequena oração que, em outras palavras, interpreta a maternidade como um estado de eterno sofrimento diante de uma situação que, ao mesmo tempo, traz felicidade. Tão paradoxal quanto o coração de uma mãe, a expressão “padecer no paraíso” parece traduzir, como nenhuma outra, a mistura de sentimentos e sensações que ocupa a alma daquela que nos deu à luz.
“Padecer no paraíso” é gerar um filho dentro ou fora da barriga – não importa –, e então alimentá-lo, cuidá-lo e levá-lo à escola, mesmo com um imenso nó garganta por ver o pequeno com lágrimas nos olhos. Ele tem medo de enfrentar um pedaço do mundo sem sua querida e sempre presente mãe. Sem saber como explicar a ele que há sofrimentos pelos quais devemos passar, tudo o que ela pode fazer é decidir ser forte pelos dois e deixá-lo seguir.
“Padecer no paraíso” é sentar-se ao pé da cama do filho doente e ficar ao lado dele até que não haja mais febre. Dure o tempo que durar, a mãe estará lá, e sua presença trará algum tipo de magia curandeira capaz de catalisar a dor de sua cria.
“Padecer no paraíso” é ensinar que sapato alto, esmalte e batom não são coisas de criança, e, de repente, dar-se conta de que o tempo passou e de que aquela menininha se transformou em mulher. Ela não só utilizará salto alto, esmalte e batom, como aparecerá diante da mãe com um acessório que, segundo os pais, sempre terá vindo cedo demais: o namorado.
Pois “padecer no paraíso” também é aceitar os namorados e as namoradas. As mães sempre criam os filhos de maneira a tentar livrá-los de todo e qualquer sofrimento. No entanto, quando eles decidem arranjar um par, tornam-se mais vulneráveis e, portanto, choram, adoecem, brigam e ficam angustiados por amor. Aflita, instintivamente a mãe tenta ajudar, proteger. Mas não adianta. Por isso, ela sofre junto.
“Padecer no paraíso” é querer jamais se ver longe do filho, mas permitir que ele faça faculdade numa cidade a duzentos quilômetros de distância. O adolescente que a mãe julgava tão sentimentalmente frágil e economicamente dependente terá de viver sozinho, numa cidade distante e num apartamento que ela não poderá ajudar a cuidar.
“Padecer no paraíso” é querer viver sempre junto da cria, porém, entender que um dia ela vai embora para construir uma família e dar à luz os próprios rebentos. A mãe não será mais aquela a quem o filho dirá o último boa-noite. Ela não mais saberá a que horas ele vai se deitar nem a que horas precisará chamá-lo para que não perca o horário. O leite não precisará mais ser fervido às seis e meia da manhã.
“Ser mãe é padecer no paraíso” porque todo milagre exige um sacrifício e porque toda recompensa implica um ônus. Todas as mães, em sua benevolência e em seu altruísmo, conhecem essas regras desde aquele dia no portão da escola, no primeiro dia de aula do filho. Lá, elas ensinaram que há sofrimentos pelos quais devemos passar e que tudo o que se pode fazer algumas vezes é decidir ser forte e seguir.
