Política

O peso de um partido político na eleição dos representantes da população

04/09/2010 03:28:38    Zoom_mais Fonte_normal Zoom_menos   Print   Mail    

Letícia Wacholz

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Os candidatos e seus partidos são colocados em uma balança
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Para João Pedro Schmidt, a legislação deveria ser menos permissiva

Em ano de eleição, em que você pensa na hora de escolher seu representante? No partido ou na trajetória do candidato? É costume do eleitor brasileiro votar naquele com quem mais simpatiza e, por isso, elege nomes e não uma agremiação política.

Uma pesquisa do Instituto Methodus revela que 68% dos eleitores gaúchos não ligam para o partido na hora de votar, ou seja, o candidato faz mais votos que a legenda. Neste cenário de expectativa, os postulantes participam de uma verdadeira competição, onde se integram políticos experientes que buscam reeleição, velhos conhecidos da política que estavam temporariamente fora e voltam a buscar um espaço público, e os candidatos novatos que pretendem se eleger pela primeira vez.

Pertencer a um partido, filiar-se a uma agremiação constituída basicamente de ideologias, filosofias e políticas partidárias, independente do tamanho, é obrigação número um para estar apto a concorrer. No caso do político, eleições anteriores têm comprovado que, para garantir um cargo eletivo, é preciso unir caráter e boa reputação, carregar consigo a palavra de ordem e levantar uma bandeira.

Para o cientista político João Pedro Schmidt, o critério básico para alguém se reeleger é manter a credibilidade junto aos eleitores. “Ela é alcançada pela imagem pessoal positiva e pela percepção de que o candidato foi responsável por realizações concretas. Partidos fortes ajudam, mas não são suficientes para manter alguém no cargo”, destaca.

No caso dos partidos ‘grandões’, o número de filiados é uma possibilidade de vitória. O histórico das votações mostra que são os políticos destes partidos que muitas vezes ocupam os cargos de maior prestígio, por terem o maior grupo de apoio. Contudo, Schmidt explica que, nem sempre, eles vencem as eleições. Explica que a força destas agremiações está naqueles que têm o maior número de candidatos eleitos em cargos públicos, muitos filiados e apoiadores e, com isso, têm o maior tempo na tevê e no rádio e conseguem a maior fatia das contribuições financeiras nas eleições. Mas quando se tratar de credibilidade, siglas com menos expressão ou apelo podem vencer. Cita o PMDB, que, diferentemente do Rio Grande do Sul, nunca teve chances reais de eleger um presidente da República, desde a redemocratização do país, na década de 1980.

Sobre os partidos nanicos, na opinião de Schmidt, alguns são criados por razões ideológicas, como os de esquerda PSTU e PCO, por exemplo. “Também há outros criados por líderes ou pseudolíderes políticos, como instrumento de projeção política ou de barganha”, acentua. Ele acredita que a legislação atual não atingiu ainda um equilíbrio entre a liberdade de criar novos instrumentos políticos e o controle dos interesses que animam boa parte das pequenas siglas.

Considerando o peso do partido e, principalmente, o papel do político diante da sociedade, questionado sobre o que vale mais – um partido ou o nome do candidato – lembra que há municípios e Estados em que uma mesma legenda permanece no poder por um bom tempo, mas o que predomina é a alternância de partidos e pessoas. “Há candidatos que são maiores do que seus partidos. Lula, por exemplo, era maior do que o PT mesmo antes de ser eleito. Outras vezes, o partido tem mais peso que o candidato”, frisa.

NOVA VELHA RECEITA

Faltando um mês para as eleições, pouco se vê nas ruas como em anos anteriores. A campanha era marcada por debates, carreatas, comícios e muita propaganda. O fato de ser um pleito geral – para presidente, deputados federais, governadores, senadores e deputados estaduais – afasta um pouco os atos de campanha no interior do Estado.

Apesar de a propaganda estar se intimidando, Schmidt acredita que a velha receita ainda está sendo seguida, tendo como novidade o uso mais intensivo da internet. “Quanto mais formas de propaganda e divulgação, melhor. É preciso utilizar bem os meios de comunicação, fazer reuniões e concentrações sempre que possível, ter militantes nas ruas distribuindo material e conversando com os eleitores”, salienta.

Outro fator importante são os recursos financeiros. O cientista afirma que o valor investido é decisivo na maioria das eleições, embora dê para ganhar com poucos recursos. “Isso é raro e só é possível quando há algum fator muito inovador, como o perfil do concorrente ou a estratégia de propaganda. É comum um candidato que, no início do período eleitoral era considerado inviável para vencer, comece a subir nas pesquisas e a partir daí consiga aumentar a arrecadação financeira”.

Sobre as coligações, ele considera pontual: “É difícil um partido ganhar sozinho e mais difícil ainda governar sozinho. Por isso que as alianças são necessárias para ganhar e governar”. Alguns partidos lançam candidaturas próprias para adquirir visibilidade e firmar uma imagem própria para conseguir a atenção dos eleitores. Mas nem sempre essa estratégia dá certo. É comum que lideranças dessas siglas acabem se vinculando a esta prática apenas para se manter no poder. “As coligações são um imperativo hoje no país, pela fragmentação eleitoral e a política existente”.

Colocando na balança a importância de um candidato e o poder de um partido, o que se vê é que o eleitorado brasileiro dá mais atenção a aspectos pessoais dos candidatos e realizações atribuídas a eles do que aos compromissos dos partidos.

Observa-se também que há lideranças e legendas que respeitam certos limites nas suas alianças, mas que, de um modo geral, são bastante flexíveis, como é o caso do PT, de esquerda, com siglas de direita, como PP, por exemplo, hoje no governo. Para tanto, na opinião de Schmidt, a legislação deveria ser menos permissiva. As alianças nacionais deveriam pautar as alianças nos estados e municípios. “A ideologia não é tudo, mas cumpre um papel importante, que hoje está minimizado na política brasileira. O pragmatismo é mais forte que a ideologia: faz-se o que permite ganhar as eleições”.

A fidelidade ao partido

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou no dia 2 de junho deste ano, um projeto que endurece as regras de fidelidade partidária. A proposição, entretanto, precisará passar por nova votação na comissão antes de ir para a Câmara.

A intenção é aumentar de um para três anos o tempo que a pessoa precisa estar filiada a um partido político para disputar eleições. Além disso, o texto determina que a perda de mandato para quem troca de partido é automática.

O projeto vem complementar resolução editada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2007, que coloca o partido como dono do mandato e não o político. Com base nisso, quem trocar de legenda deve perder o mandato. Atualmente, diretório, suplente e Ministério Público devem pedir a perda do mandato. Com a proposição, seria automática.

A resolução prevê e o projeto mantém exceções à regra da fidelidade. Pode trocar de partido e manter o mandato quem for perseguido pela legenda, quem provar mudança de ideário do partido ou ainda quem estiver em legenda que participou de fusão ou foi incorporada por outra.

A VISÃO DOS CANDIDATOS

O que você, candidato a deputado estadual, acha que vale mais: o seu partido ou sua trajetória na política?


Alfredo Scherer Neto (PSDB)

“A ideologia partidária e a abertura do leque das coligações deixaram o eleitor confuso, afastando-o do processo de participação partidária. A única alternativa que restou ao eleitor foi a de acompanhar a trajetória política do candidato, o seu trabalho. Não o seu partido. Infelizmente os partidos e suas ideologias ficaram afastados das reais necessidades da população e da sua difícil realidade. Trabalho e trajetória na política é o que acaba valendo mais.”


Arnildo Camara (DEM)

Acredito em uma política séria e por isso cobro do meu partido responsabilidade e transparência. Escolhi os Democratas porque é o partido que tem uma ideologia com que mais me identifiquei. Porém, cada candidato precisa confiar numa campanha própria, ser um ficha limpa, sem abusar do poder público, ser respeitado e lembrado pelo que fez pela região que representa. Todos os partidos podem ter bons representantes. Vale aquele que tiver feito mais pela população.”


Celso Krämer (PTB)

Na verdade, tanto o partido quanto a trajetória se misturam, pois um leva ao outro. Geralmente, a tua trajetória, te leva a te identificar com uma bandeira partidária. Aquele que deseja se candidatar, deve se filiar a um partido. Acredito, também, que a trajetória inicia antes da filiação.”



Jandir da Silva (PC do B)

O partido para mim é um instrumento necessário, mas é claro que a trajetória política vale mais, pois ela me projeta diante dos eleitores. Além do mais, é o que me dá condições de grandes desafios e lutar por melhores condições em prol de uma população.”


Telmo Kist (PDT)

“A proliferação de partidos políticos veio mais para confundir o eleitorado do que propriamente apresentar soluções diferentes para os problemas que o país enfrenta hoje.

Analisando os programas dos partidos vemos que não diferem muito um do outro. Por isso o eleitor passou a escolher o candidato pela sua trajetória, pelo seu trabalho comunitário, percebendo que em todos os partidos há bons políticos. Nos orgulhamos de pertencer ao PDT, um partido que tem história, que tem um legado de Brizola na defesa do nacionalismo, da educação e do trabalhismo”.


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