Para o Bruno, sabemos tudo. Para o Thomaz, somos tudo. Filhos são excelentes para a autoestima. Mesmo naqueles dias em que as coisas não dão muito certo, em que esquecemos as chaves, batemos a canela no cantinho da cama, ou chegamos atrasados num compromisso super importante, lá estão eles, ansiosos a nossa espera, alegres com a chegada.
Filhos não veem nossos quilinhos a mais, não se importam quando a maquiagem borra, nem mesmo se chateiam quando, apressados, esquecemos de trocar o casaco que ficou pequeno.
Amam tão profundamente os pais que nem percebem as falhas, ineficiências e fraquezas. Não valorizam nossos medos, e nos colocam no pódio de seus amores. Pelo menos enquanto não chega a adolescência, pois falo sobre minhas próprias experiências como mãe, como alguém que tem um bebê e uma criança de cinco anos em casa. O capítulo seguinte só vou começar a escrever daqui a uns sete anos. Por enquanto, ainda sou uma supermãe.
Para o Bruno, minha presença afasta os medos, cura os machucados, faz chegar em casa depois da escola. Se precisa de ajuda para colocar a roupa ou amarrar os tênis, chama a mãe, que sabe tudo. Se quer passar de fase no videogame ou escrever um bilhete para o avô, chama a mãe. E assim, sucessivamente. Quando estou em casa, corto a carne, faço o sanduíche, preparo o leite com Nescau, sei as regras de todos os jogos e ainda atuo como goleira. No final do dia, arrumo as cobertas, afago e boto para dormir meu pequeno grande menino. Às vezes eu, às vezes o pai, não posso querer todos os méritos só para mim.
Com o Thomaz, a relação ainda é mais instintiva. Não quer mais a cadeirinha, o carrinho, o balanço, ele gosta mesmo é de colo, de contato, de amasso. Faz beicinho quando peço para me dar tchau, e quando volto, quer comer minhas bochechas. Sorri com a boca toda, com olhinhos felizes, se atira para meu colo, pega com força meu rosto, morde sem dentes meu queixo e procura o peito. Entendo o recado, está com saudades. Poucas horas longe e ele já está com saudades de mim. Compreendo inteiramente sua reação, a recíproca é verdadeira, e só não mordo com a mesma intensidade suas bochechas porque já tenho dentes.
E nesta época em especial, com o meu dia se aproximando, e de todas as outras mães, Bruno dá pistas em casa sobre a música que estão ensaiando na escola. Coincidentemente, uma das quais já cantei muitas vezes para ele, e está no vídeo do seu primeiro aninho. Chega a ser covardia, daquelas que fazem as mães chorarem como bobas, indiferentes ao que acontece ao redor. Mas não conto, posso estar estragando uma surpresa. Em casa, prepara a lista dos presentes que gostaria de me dar e me diverte com sua ingenuidade criativa. De bonecas Barbie a “roupa chique”, a lista tem brinquedos, chocolates e um milhão de beijos. Se puder escolher, fico com a última opção.
Milhão, quadrilhão, quinhentos mil. Infinito. Bruno está aprendendo a fazer contas, começando a compreender a utilização dos números em datas, horas e quantidades. Dia desses achou muito caro um vidro de mini milhos em conserva que custava 540 gramas, explicamos a ele que este era o peso e não o preço. Em casa e na escola, este complexo mundo numérico começa a fazer sentido. Mas tem uma coisa que ele não tem dúvidas, que milhão é um monte mesmo e que infinito é maior que tudo. Então, assim define e mede as coisas que não tem medida.
Amor de filho é infinito, amor de pai e mãe é infinito. E milhão é sim um bom número de beijos para ganhar no dia das mães. No meu caso, vou esperar por dois milhões.



